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  • Pedro Mastrangelo

Chega de Catastrofismo



Roland de Bonadona - "Reabertura dos nossos hotéis, reativar os empregos, e voltar a acolher nossos clientes com carinho e profissionalismo" - Foto - Divulgação Artigo de Roland de Bonadona


O coronavírus se espalhou por todo o planeta paralisando praticamente tudo. Como sempre, o setor de viagens é o primeiro atingido. Desta vez, não é apenas o medo ou a economia que mantém os clientes em casa, e sim uma decisão das autoridades. Crise não é algo desconhecido para o setor de turismo e viagens. A novidade é o tamanho da escala. Nunca tivemos confinamento global; muito menos aviões parados no chão no mundo inteiro; todos os hotéis, parques de diversões, restaurantes e shopping centers fechados; escritórios vazios. Por isso devemos esperar um impacto mais forte do que experimentamos até agora. A corrida de 2020 parou. Quando pudermos voltar, veremos o quão rápido conseguiremos correr, e saberemos no final do ano até onde chegamos. Mas, não adianta gastar energia em calcular quanto tempo perdemos em relação à corrida anterior. Não devemos ser masoquistas a ponto de calcular, como acabou de fazer uma renomada consultoria, quantas futuras provas teremos que correr em velocidades inalcançáveis para compensar o tempo que perdemos.



Esses gráficos e análises não possuem utilidade alguma, a não ser esbanjar pessimismo, num momento em que precisamos concentrar nossas energias em nos preparar para as provas que virão. Não vamos negar o abalo sem equivalente que o primeiro semestre de 2020 vai ter no setor de turismo, até porque a economia mundial inteira está profundamente impactada e a atividade do setor está intrinsecamente ligada à atividade de demais setores. Não há dúvida de que deverá haver um esforço maior das autoridades governamentais para apoiar nosso setor, o que está sendo feito com muita eficiência em outros países como USA, Colômbia, França entre outros. E para os que insistem em predições catastrofistas, existem três realidades concretas que deveriam moderar suas análises: A primeira: Nos últimos 20 anos, o turismo se recuperou de todas as crises que o afetaram. Os ataques terroristas de 11/09 e todas as crises que se sucederam – SARS em 2003, as crises financeiras como Lehman Brothers- afetaram o volume de viagens internacionais. Porém, nenhuma delas impediu o setor de se reconectar à tendência anterior, crescendo de 675k a 1.461 milhão de viagens entre 2000 e 2019, representando um aumento em volume de 117% no período – 4% em ritmo médio anual, acima do crescimento médio do PIB mundial. A segunda: Na China, três meses após o lockdown e a parada completa da economia, quase 100% dos hotéis foram reabertos, e segundo os relatórios da STR, Provedor de recursos de benchmarking, os consumidores recomeçaram a viajar: A TO dos hotéis nos segmentos econômico e midscale atingiu os 50%, e os destinos resorts têm picos de demanda durante os finais de semana.


A terceira: Todos os resorts brasileiros estão fechados, mas as reservas não foram canceladas, muito pelo contrário, 90% destas reservas foram postergadas para outros períodos. Os clientes não renunciaram às suas viagens. As pessoas voltarão a viajar quando o confinamento for liberado, quando se sentirem em segurança, com emprego, dinheiro na conta, malha área reconstituída e hotéis abertos. É no mínimo peremptório declarar que as viagens serão trocadas pela tecnologia, uma vez que a mesma tem ajudado as pessoas a ficar em casa durante a crise.

A tecnologia não chegou agora. O primeiro IPhone saiu em 2007, colocando o GPS, WhatsApp e a câmera fotográfica no nosso bolso. Vieram em seguida milhares de aplicativos, e junto com eles as redes sociais online, o sharing economy, o compartilhamento de experiências, os meta-buscadores e comparadores, acesso fácil e imediato a destinos, receptivo, pagamento e crédito online, alimentando os sonhos e criando novos hábitos de viagens entre as gerações digitais, além de estimular o turismo de lazer, recreação e viagens privadas que representam 75% da atividade total do setor. Quem pode dizer que as semanas de confinamento vão reverter esta tendência, anunciando o fim das viagens e do setor de hospitalidade, como estão fazendo algumas grandes consultorias? O que deve ser feito é elaborar cenários e ajustá-los com a devida frequência para que os hoteleiros e outros operadores de turismo possam planejar a reabertura do seu hotel, ou da sua operadora de receptivo e trabalhar na motivação e capacitação dos colaboradores para propostas alinhadas às expectativas de higiene e segurança dos clientes. É indispensável também que possam contar com a ajuda pública para negociar o financiamento do déficit de caixa, focar na realimentação da demanda com recursos de promoção e crédito, de forma a estimular a volta dos clientes. Já sabemos que são cenários provisórios, e precisaremos ajustá-los durante o tempo que durar a reconstrução do setor, sejam lá 6, 12, 18, meses ou mais. Estes cenários provisórios irão durar até que o número de viagens retorne a seu equilíbrio mediante à oferta. A hotelaria do FOHB – Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil  fechou 2019 com uma taxa de ocupação de 60% e uma diária de R$ 245, REVPAR de R$ 246, (Média consolidada Brasil), o que foi considerada uma etapa positiva na recuperação do setor após a recessão de 2015-2016. Podemos considerar estes números como uma base, uma meta para alcançar novamente e superar em seguida. Elaborar e monitorar cenários baseados em fontes sérias e informações objetivas é o que devem fazer associações e consultorias responsáveis. Sabemos que devemos nos preparar para momentos desafiadores. Haverá fatalidades para quem entrou na crise endividado ou com propostas desatualizadas? Haverá reconversões e consolidação? Haverá reorientações estratégicas? Recentemente Marriott comprou Starwood, Windham comprou La Quinta, em 2019 o gigante Thomas Cook- primeiro operador de viagens da história foi para a falência, Sébastien Bazin revolucionou a estratégia do Grupo Accor desde sua chegada à frente do Grupo em 2013. Nenhum destes acontecimentos teve relação com COVID 19. O que precisa ficar claro é que para qualquer análise setorial existem muitas outras variáveis, preexistentes ou não, tais como busca de propósito, ressurgência do medo da contaminação, influência do período de confinamento, do uso forçado do home office, e-meeting, conference call etc. Isso sem mencionar outra variável muito importante: as autoridades públicas. Em vez de adotar uma estratégia comum e juntar esforços para enfrentar a situação, se empenham em se dividir e atropelar iniciativas. Prever como e quanto estas variáveis combinadas entre elas vão inibir ou estimular a demanda futura é pura adivinhação. Vamos focar no concreto, na reabertura dos nossos hotéis, reativar os empregos, e voltar a acolher nossos clientes com carinho e profissionalismo. Roland de Bonadona é Presidente da BHC – www.bhcconsultoria.com Hotel Consulting e possui muita experiência no setor hoteleiro, tendo sido CEO da Accor na América Latina.

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